A gente costuma chamar uma revanche - quando bem sucedida - de justiça. E a Fresno sempre se viu em um ambiente onde os que não lutam, perecem. É muito fácil sucumbir às regras de um mercado formatado por uma meia-dúzia de mentes há muito tempo fechadas, ou ceder à pressão de uma minoria de intelectuais que, alheia ao mundo, alça ao patamar dos geniais toda e qualquer tentativa de celebridade. A Fresno optou por um árduo caminho.
É inegável o sucesso da banda, mas eles têm plena consciência de que, 'mexendo uns pauzinhos', estariam em outro lugar. Teriam mais sucesso, mais dinheiro e nenhum amor próprio. Às vezes, uma sucessão de concessões resulta numa total perda de identidade. No entanto, uma primeira audição atenta de "Revanche", o quinto disco de estúdio da banda, traz explícita a sonoridade de uma banda que chegou ao estúdio com um conceito formatado na cabeça e muita vontade de expandir horizontes, para todos os lados.
As mesmas ideias que permeiam os seus primeiros discos ainda estão ali, mas dessa vez assumindo uma profundidade jamais obtida. A faixa-título abre o disco com um riff pesado, que remete a Smashing Pumpkins e Velvet Revolver, e sua letra explica o título do disco. Quem tem paixão pela própria vida acaba tratando todo tipo de empecilho como uma afronta à sua liberdade de ser e agir. A raiva, sentimento até então raro nas composições da banda, aflora em vários momentos do álbum, mas de uma maneira não-forçada, sempre pontuada com riffs modernos e vigorosos.
"Deixa o Tempo", primeiro single do disco, surge ainda no eco da pancada da música anterior, com as melodias que deixaram a banda famosa, mas acompanhada de um instrumental etéreo e atmosférico que, com o passar do tempo vai ganhando intensidade, até explodir num apoteótico último refrão. Faixas como "Esteja Aqui", "Se Você Voltar", "Eu Sei" e "Nesse Lugar" mostram a evolução da musicalidade e do senso pop do Fresno. O DNA da banda está ali, mas a produção caprichada de Rick Bonadio, aliada aos arranjos detalhados e cheios de nuances faz a banda soar mais dinâmica e profunda. "Quando Crescer" e "Porto Alegre", as baladas sangrentas do álbum, mostram que as incursões ao piano durante a turnê do "Redenção" acabaram resultando em composições inspiradas, cheias de arranjos de cordas e construções harmônicas de violões e guitarras envolventes.
A Fresno pensou com muito carinho na ordem e disposição das músicas para mostrar de uma vez por todas para o grande público a extensão do seu espectro musical, fato que fica evidente em seus shows. Músicas como "Die Lüge", "Relato De Um Homem De Bom Coração" e "A Minha História Não Acaba Aqui" chegam a assustar o ouvinte desavisado, com seus temas ásperos e arranjos idem. As guitarras, quando convocadas, aparecem como uma parede sonora, sustentando a tensão proposta pela letra - uma verdadeira usina de riffs poderosos e de personalidade, muitas vezes aproximando o grupo a medalhões como Muse e Queens Of The Stone Age, dos quais a banda se declara fã.
A "Canção da Noite" fecha o álbum da mesma forma que o grupo procura fazê-lo: deixando o ouvinte pensativo. Num exercício de auto-análise e reflexão, a letra trata sobre a necessidade pós-moderna de se mostrar auto-suficiente, quando na verdade a tendência do ser humano é a de se conectar. Os inúmeros shows lotados pelo País inteiro ilustram bem a tese de que uma música torna-se muito mais poderosa quando cantada por mais vozes.
"Revanche" é apenas mais um round na luta do Fresno, mas um round vencido com facilidade, na base de muita porrada.
Nenhum comentário:
Postar um comentário